Ela foi levada para a casa dos loucos

Apesar da dose de generosidade que havia dado ao mundo, uma quantia de palavras e impulsos, nada poderia compensar seu tornar-se miserável – ou o que ela deveria ser. 

Eu não sou ela, ela pensou, eu não vou deixar essa recusa da realidade pairar sobre o meu dizer das coisas, mesmo que isso signifique ter com uma boca cheia de formigas. Esse formigamento vai resumir anos de silêncio, de gerações antepassadas de mulheres engolindo sílabas emasculadas de ignorância ao redor da forma dos fonemas, escuta glorificada ensacando fêmeas encriptadas, em transe diante do navegar musculoso de mundos embraçados. 

Eu vou rejeitar meus pais, ela prossegue, ousando desejar pensamentos impensáveis, recusando um vocabulário de anseios ancestrais masculinos. Vou parir a minha morte e nascer novamente, fora dessa sentença de línguas vergonhosas. 

Pai, você está machucando as palmas das minhas mãos, você está cortando o meu coração com o bronze dos seus centavos.

Você nem ouse, menina, é o olhar que ela recebe, mas ele é fraco, ele não tem a coragem de dizer uma só palavra. Sua indiferença é a sua arma, sua estratégia para diferir diferenças. 

Eu sou filha de minha mãe, ela fala com os olhos, sentindo ódio em sua alma, apesar do alento de sua mãe, apesar do respiro que urge pelo nascimento inconsciente de emoções foracluídas, cria da consciência que faz com que ela destrua tudo que pode ameaçar sua terra fértil, e para isso, a necessidade de sacrificar seu território, pelo menos por enquanto, pois apesar da sua inocência, é ela quem será levada para a casa de loucos.

Não será seu pai, nem a sua mãe: ela é quem será chamada de insana.

Eles vão trancá-la a chaves para o seu próprio bem: está querendo demais ser algo além do que lhe destinam. Seu pecado: se tornar mulher. Nem dele, nem dela, talvez de ninguém, mas pelo menos livre para gerar uma leve curva na linguagem da sua sorte, onerosamente recontando a moeda de operação e escolhas, matematicamente deixando tudo para trás, a inquisição, você não tem medo de ficar sem alguém que lhe pose questões para que sejam respondidas por eles mesmos, a autoridade irá indagar.   

Não, a garota vai pensar num futuro passado, acelerando-se em direção a uma visão iluminada de suas mãos algemadas contra uma maca de hospital, assistindo à sua mãe milhas de anos luz anteriores, num continente diferente, num corredor oposto, um entrecruzar de macas e um sorriso em suas faces, décadas prévias, sua mãe prestes à dar luz ao seu segundo filho, o grande irmão da menina, um vislumbre inaugural dos paradoxos que nasce em vida. 

Video ensaio por Désirée Jung.

Publicado em inglês na revista Talon Review, Issue 3.

Official Selection of the 2024 International REELpoetry Film Festival, Houston, Texas.