Incinerar-se

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Ao desenterrar um entrançamento de memórias do meu peito, acidentalmente descolo uma trama fibrosa de feridas, cuja cicatrização é reaberta pelo novo esfacelar.

O efeito de tal rasgo é o desabrochar de um botão anteriormente cerrado, anciã lesão de ardor intenso. 

Retirar o esparadrapo de uma queimadura é colar na pele sua outra face, expondo o que foi imobilizado dentro, fora. 

Essa aderência indisposta é um sentir de ar fresco, mas também ter as mãos tremendo de frio, um calafrio de ver-se paralisada na soleira do passado, sem a chance, ainda, de se retratar com o presente. 

Incinerar o arcabouço do meu corpo é incendiar em mim todas as mulheres que inflamei em nome do amor – ao trair-me no meio do caminho, lacerada pela fenda cremada por feridas. 

Hoje, em carne viva, estou a todo momento, um resíduo futuro das cinzas que cairão de mim ao me atear no fogo mais uma vez: nas brasas de uma estação airada pela própria fuligem, inflamando as gazes metálicas que se deixam findar, sem qualquer rede de proteção. 

Mirando o esvaecer das estrelas, se desfazendo a cada noite, eu me transformo em cinzas.